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Huanglongbing HLB - 20 anos do Greening em São Paulo

Postado em 30/01/2024 às 09h46 | Por Assessoria de Comunicação CDA

Entenda o cenário da citricultura paulista antes do surgimento do HLB

Antes de iniciar o contexto histórico, vamos abordar primeiramente o nome da doença. A palavra Huanglongbing e sua abreviatura (HLB) segundo trabalhos científicos é o nome oficial da doença e significa “doença do ramo amarelo”, sendo que há publicações em português que também já citaram doença do dragão amarelo, inclusive há trabalhos que fazem a citação Huanglongbing (HLB - ex greening). No site do Ministério da Agricultura e Pecuária ele é citado como Huanglongbing (HLB), no site do Fundecitrus como Greening Huanglongbing. Porém o nome que foi adotado pelos citricultores de São Paulo foi o greening, termo em inglês que significa esverdeamento e que teria surgido na África do Sul, quando a doença chegou ao continente africano.

O Boletim Técnico número 165, da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo (SAA), publicado em junho de 1989, nomeado “Citros: Recomendações para o controle das principais pragas e doenças em pomares do estado de São Paulo 1988/89” trazia instruções sobre os complexos de ácaros, cochonilhas, moscas das frutas, pulgões e complexo de doenças verrugose, melanose, rubelose e gomose. Provavelmente um citricultor de terceira ou quarta geração ao se deparar com essa publicação nos dias atuais, deve pensar como era fácil produzir citros nessa época, entretanto a década de 90 do século passado, já reservou desafios que iriam calejar a citricultura paulista para o seu maior desafio, o greening, que iria surgir no início do século atual e que neste ano completa 20 anos de sua descoberta no estado de São Paulo, no Brasil e no continente americano.

Folhas com sintoma. Fonte USDA APHIS

Em observação, não se trata de fato comemorativo, mas sim de um alerta. O greening permanece sendo o principal desafio fitossanitário da cultura dos citros sendo alvo permanente de campanhas de conscientização sobre a sua gravidade e foco dos trabalhos de pesquisa científica.

Não é novidade que as pragas que acometem a cultura dos citros, sempre foram desafiadoras à sustentabilidade do parque citrícola paulista. Publicações técnicas da década de 90 do século passado, já traziam 3 (três) novas pragas, a menos problemática o bicho furão, cujo monitoramento era difícil, devido a um ovo e uma lagarta em primeiro instar pouco perceptível que logo jovem, já entrava no fruto, causando seu dano direito e queda prematura. Porém, duas novas pragas eram temidas, pois estavam atreladas a doenças bacterianas, o complexo de cigarrinhas que eram vetores da CVC (Clorose Variegada do Citros) e o minador dos citros, cujas lesões facilitavam em muito a infecção da bactéria do cancro cítrico, o que fez a doença explodir sua incidência, principalmente nas regiões mais quentes do interior do estado de São Paulo especializadas em produção de fruta de mesa que tem como característica as multifloradas, ou seja, brotações o ano todo.

O final do século passado e início do novo milênio trazia um cenário desafiador à citricultura, pois a situação dos citricultores era difícil economicamente, ao ponto de alguns não conseguirem escoar sua produção (diferente do cenário de hoje de preços recordes) junto do aumento de pragas e doenças já citado aqui; porém uma doença transmitida por um vetor já conhecido dos entomologistas ligados a citricultura já começava a ser citada em materiais técnicos. O informativo Manejo Ecológico de Pragas da então Gravena Manejo Ecológico de Pragas Agrícolas edição de Agosto de 2000, na sua seção Insetos Vetores de Doenças de Citrus, publicava a matéria “Psilídeo. Uma praga em potencial na citricultura”, citando que a presença do psilídeo em pomares citrícolas aumentava drasticamente os riscos do greening no país e já fazia o alerta “A presença do psilídeo na América do Sul, data de várias décadas mas sem sinais da doença, pois a existência do psilídeo não significa que a doença está presente. Entretanto nestes casos com a ocorrência do vetor aumenta drasticamente os riscos de introdução doença”. E chamava a atenção para a restrição de produção, “...em áreas endêmicas, as arvores tornam-se improdutivas entre 5 e 8 anos. A doença já foi notificada na Ásia, África, Península Arábica, Índia e China.

Psilídeo, vetor do Greening

A pesquisa agropecuária brasileira já estava consolidada no Brasil e também São Paulo, devido à presença do estado da tríplice universidade (USP, UNESP E UNICAMP) e do IAC/APTA da própria SAA. Também possuía no caso do citros, própria iniciativa dos citricultores de validar tecnologias e pesquisas locais através do Fundo de Defesa da Citricultura (FUNDECITRUS). Houve resposta ao bicho furão, criando estratégias de MIP (Manejo Integrado de Pragas) inclusive com a introdução de feromonio de monitoramento e a CVC, com a criação do MIP para o vetor e sequenciamento genético da bactéria que causava os sintomas. O Cancro Cítrico por não haver material genético comercial resistente seguiu outra estratégia, como veremos adiante.

Paralelamente, o poder público contribuiu com o incentivo à produção de materiais de propagação de citros, de forma fitossanitariamente mais segura, como é o caso da publicação do então Decreto 45.491, de 30/11/2000, que aprovou o “Projeto de Produção de Mudas Cítricas em Ambiente Protegido de interesse para a economia estadual”, considerando o alto risco de disseminação de CVC, e assim proibiu, gradativamente, a produção de mudas de plantas de citros a céu aberto, forçando o setor a produzir dentro de ambiente protegido com tela antiafídica, o que, mais tarde proporcionaria a sustentabilidade da citricultura paulista frente à chegada do Greening, quando considerado seu vetor, o psilídeo Diaphorina citri.

Simultaneamente, foi firmado um convênio entre FUNDECITRUS, Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) e SAA para realizar a inspeção total do parque citrícola de São Paulo a fim de identificar plantas sintomáticas com cancro cítrico e promover sua erradicação, sendo necessário a criações de bases legais mais restritivas. No auge do convênio, os pomares paulistas chegaram a ter mais de 4000 (quatro mil) inspetores, algo nunca visto no mundo para controle de uma doença em uma cultura vegetal. Da descoberta do greening em 2004 até o final dos anos 2000 (dois mil), quando o convênio deixou de existir, a estratégia de inspeções pelo estado, coleta de material suspeito para comprovação em laboratório também foi estendida ao greening, porém com resultados menos notáveis se comparado ao cancro cítrico.

Praga Quarentenária Presente (PQP), o greening colocou em xeque há 20 anos um dos maiores cinturões citrícolas do mundo, o interior de São Paulo e o triangulo mineiro. Abordamos o contexto das pragas já existentes antes do surgimento do greening e como isso colaborou entre erros e acertos em manter o estado ainda como principal produtor de citros do país, situação não vista em nenhum lugar do mundo onde foi introduzida a doença.

Revista do Fundecitrus, Jul/Ago 2004

Ao longo deste ano, traremos uma série de matérias sobre o assunto, explorando aspectos históricos, técnicos e do aperfeiçoamento da legislação, além de perspectivas futuras para esta que é a principal doença da citricultura no mundo.

Por Maurício Rotundo e Luciano Melo

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