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05/11/2020

Dia Nacional do Técnico Agrícola: Prática de campo no esteio do desenvolvimento sustentável

A data reservada à celebração da profissão de técnico agrícola foi instituída pela Lei n.º 13.099, de 2015, como referência à Lei n.º 5.524, de 5 de novembro de 1968, que definiu o exercício da profissão. Mas relatos históricos apontam que essa profissão tem mais de 100 anos, tendo como marco inicial a formação da primeira turma da Escola Técnica de Agricultura de Viamão - Rio Grande do Sul, fundada em 1910.

“Essa escola foi precursora no ensino técnico profissionalizante, com o “Curso de Capatazes Rurais”, lançado em 5 de novembro do mesmo ano de sua criação, com preceitos pedagógicos modernos e audaciosos, inovadores para a época, os quais tornaram-se modelo, no Brasil e na América do Sul. Coincidentemente, a Lei que regulamentou a profissão foi promulgada no mesmo dia. Sendo assim, essa data foi definida, consensualmente, pela Federação Nacional dos Técnicos Agrícolas (Fenata) e suas entidades estaduais, como a mais adequada para celebrar a nossa categoria, cuja trajetória centenária tem sido marcada pela coragem, solidariedade e força coletiva, e na qual a capacidade de trabalho e superação têm sidos decisivas para o sucesso do nosso agronegócio, que é referência mundial e um dos maiores setores da economia do Brasil, sendo responsável por 1/3 do Produto Interno Bruto (PIB)”, salienta Mário Limberger, presidente da Fenata e do Conselho Federal dos Técnicos Agrícolas, criado em 2020, como fruto da atuação da Federação.

Segundo a Federação, atualmente existem mais de 300 mil profissionais (formados em escolas técnicas, que seguem os princípios de uma escola com nível de Ensino Médio, aliado aos ensinos teórico e prático da agropecuária) atuando em mais de 40 modalidades da profissão, nas mais diversas frentes do agro brasileiro, desde produção e beneficiamento até a comercialização; gestão de empreendimentos agropecuários e agroindustrial; máquinas e implementos; agrimensura; georreferenciamento etc. “Hoje, com o avanço tecnológico e as demandas crescentes do agronegócio, os técnicos agrícolas têm se aperfeiçoado, estando presentes nas mais variadas cadeias, com especial atenção à produção de alimentos e à geração de renda e emprego no campo”, avalia Limberger.

Técnicos agrícolas na Secretaria

Na Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, os técnicos agrícolas integram o corpo de extensionistas da Coordenadoria de Desenvolvimento Rural Sustentável (CDRS), atuando nas Casas da Agricultura e/ou nos Escritórios Regionais que abrangem todo o Estado de São Paulo e na Coordenadoria de Defesa Agropecuária.

“Esses profissionais são muito valiosos no trabalho de campo, atuando de forma integrada com os engenheiros agrônomos, médicos veterinários e zootecnistas que compõem a nossa rede na prestação de serviços de assistência técnica e extensão rural (Ater), principalmente aos pequenos produtores, desenvolvendo e executando projetos, especialmente na área de conservação do solo, incluindo controle de voçorocas, adequação de trechos críticos de estradas rurais e demarcação de curvas de níveis, além de outras ações locais”, ressalta Júlio César Romeiro, coordenador substituto da CDRS, avaliando que, ao longo das décadas de trabalho da extensão rural paulista, esses profissionais tiveram uma grande contribuição no desenvolvimento da agropecuária moderna e mecanizada que caracteriza o Estado.

Denilson Perpétuo Godoy faz parte dessa equipe. Formado técnico agrícola pela Escola Padre José Nunes Dias, no município de Monte Aprazível, em 1991, ingressou na Secretaria de Agricultura em 1994, atuando na área abrangida pela CDRS Regional General Salgado. “Desde adolescente, quando comecei a estudar na escola agrícola, tinha como sonho trabalhar na extensão rural da Secretaria; aliás, este sonho era compartilhado pela maioria dos meus colegas e por engenheiros agrônomos que conhecíamos e tinham como meta de vida pessoal e profissional atuar na transferência de tecnologia ao produtor rural, para contribuir com o desenvolvimento da agropecuária e a transformação da vida das famílias do campo. Para atingir esses objetivos, não existia nenhuma outra entidade que tivesse um trabalho tão grande e maravilhoso como a extensão rural da Secretaria”, relembra.

Com uma trajetória que começou na Casa da Agricultura de União Paulista, Denilson conta que, por meio do Programa Estadual de Microbacias Hidrográficas, executado pela Secretaria entre os anos de 2000 e 2008, via Coordenadoria de Desenvolvimento Rural Sustentável, teve a oportunidade fazer parte da Unidade Técnica de Engenharia (UTE), criada para desenvolver projetos e ações nas áreas de conservação do solo e adequação de estradas rurais. “Nesse período tive a certeza de que se faltou cursar a faculdade de Agronomia, pude contar com grandes mestres e professores que aperfeiçoaram meus conhecimentos de tal forma que, atualmente, sou o responsável pela coordenação das ações da UTE de General Salgado, que tem um trabalho com grande demanda, por parte dos produtores, na área de conservação do solo”, diz o técnico agrícola, acrescentando: “Sem o trabalho unido das equipes técnicas e administrativas não alcançaríamos os resultados que obtivemos em anos de trabalho com os projetos de adequação de estradas rurais e no Projeto Integra SP – Recuperação de Áreas Degradadas por Grandes Erosões (Radge) aqui em nossa região. Desde o início das primeiras ações, entendemos que só por meio de um trabalho com um objetivo comum é possível mudar a vida do homem no campo e, nesse sentido, mais que números em relatórios, o que tem me marcado como técnico é ver a transformação de vida de muitas famílias”.

Um dos produtores que atesta a importância desse trabalho é Albino Leso, proprietário do sítio Nossa Senhora de Lourdes, no município de Floreal. “Antes do projeto executado pelos técnicos, a nossa área tinha uma voçoroca tão grande, que quase não era possível transitar com o trator e, a cada dia, a gente perdia mais a capacidade produtiva do sítio. Depois da execução do projeto, o serviço de recuperação da área ficou tão bom, que daria até para plantar seringueira aqui por conta do nivelamento do solo”, diz o produtor, que tem como atividade principal a pecuária.

Diante desse relato, Denilson encerra sua fala em tom emocionado: “Eu lembro de muitas vezes ter chegado com colegas em uma propriedade em que o agricultor estava desanimado, com graves problemas de erosão que estavam inviabilizando a capacidade de produção e a renda da atividade. Eles se mostravam desmotivados, sem conhecimento e recursos para mudar a situação e recuperar a área; e, após o atendimento feito e o projeto traçado, se diziam revigorados e com a expectativa de se manterem no campo, chegando a dizer que tínhamos mudado suas vidas. Por isso, tenho orgulho de ser técnico agrícola, ocupar há quase 30 anos o cargo de técnico de apoio agropecuário na Secretaria de Agricultura e, poder, por meio da extensão rural, fazer a diferença em benefício ao produtor rural, contribuindo com o desenvolvimento sustentável, junto com meus colegas técnicos agrícolas que atuam em outras regiões paulistas”.

Defesa Agropecuária

Junto à Coordenadoria de Defesa Agropecuária, a profissão de técnico agrícola ou técnico agropecuário é essencial para o desenvolvimento das atividades que são de competência deste órgão da Secretaria, compondo as equipes de fiscalização de trânsito de animais e de produtos vegetais, de propriedades rurais agrícolas, viveiros de mudas, coleta de material vegetal para exames, na fiscalização do uso de agrotóxicos, em estabelecimentos comerciais e auxiliar na inspeção SISP, atendimento a focos de doenças, na coleta de material para exames, vacinação assistida, eventos de concentração animal e no controle da raiva animal, uma das atividades de maior risco, face às dificuldades e ao ambiente do trabalho.

Imagine entrar em bueiros, tocas, casas abandonadas, caminhar quilômetros mata adentro, atravessar rios equilibrando-se em cordas, descer montanhas de rapel munidos de redes neblina, lanternas, luvas, óculos de proteção, máscaras, botas e puçás. Essa é a lida das equipes de técnicos agrícolas que realizam o trabalho de monitoramento e controle dos abrigos do morcego hematófago (Desmodus rotundus) que se alimenta de sangue e pode transmitir a raiva aos animais.

Nas capturas noturnas ou na fonte de alimentação, como eles dizem, nos refúgios onde os morcegos esperam anoitecer e se preparam para atacar, os técnicos agrícolas armam as redes neblina, que são finas quase imperceptíveis e específicas para esse fim, e esperam que os morcegos saiam para se alimentar com o sangue dos animais do local. Em “boca de cavernas” passam a noite abrigados em barracas e a cada dez minutos inspecionam a rede e retirar os morcegos que ficaram presos e coloca-los em uma gaiola. Os de outras espécies são soltos e os hematófagos recebem a pasta e são soltos para voltar aos seus abrigos.

O trabalho de controle do Desmodus rotundus requer habilidade, um pouco de gosto pela aventura, mas deve ser realizado por pessoal habilitado e imunizado, com conhecimento para a identificação dos morcegos capturados e pelo alto risco de contrair a doença.

A chegada de uma equipe na propriedade rural é sempre motivo de esperança e alegria para o produtor rural e sinal de proteção à saúde de seus animais e de sua família. Além de realizarem o trabalho, eles orientam sobre o controle da raiva os herbívoros, o uso da pasta vampiricida nos animais que apresentam mordeduras por morcegos e a vacinação em regiões de risco.

No retorno à sede, estes se juntam aos técnicos que realizam outras atividades voltadas à proteção da saúde, da sanidade animal e proteção ao meio ambiente e são os responsáveis pelo atendimento ao público, emissão de guias de trânsitos e cadastro de propriedades.